Post 14: Atenção

Olá!

Hoje inauguro uma série de postagens sobre o que o neurocientista francês Stanislas Dehaene considera os quatro pilares do aprendizado: atenção, engajamento ativo, feedback de erro e consolidação.

Esse post foi baseado no último livro de Dehaene, How We Learn: Why Brains Learn Better Than Any Machine … for Now (https://amzn.to/31PRxoV), o melhor livro que li sobre aprendizado até hoje, como indiquei no Post 08.

O tema de hoje é a atenção, onde tudo começa. E também uma das maiores dificuldades relatadas por quem se prepara para concursos.

O que é atenção? Nas palavras de Dahene, “o termo ‘atenção’ refere-se todos os mecanismos pelos quais o cérebro seleciona, amplifica, canaliza e aprofunda o processamento de informações”.

E selecionar informações relevantes é fundamental para o aprendizado, pois recebemos inúmeros estímulos de todos os tipos a todo momento. Sem atenção, jamais seria possível focar no que queremos aprender.

Atenção consciente direcionada a determinada informação promove uma ativação neuronal muito mais vigorosa do que informações às quais não prestamos atenção. E  essa ativação vigorosa gera o que os neurocientistas chamam de potenciação de longa duração, que aumenta muito a possibilidade de lembrar desse conteúdo no futuro.

Existem três sistemas principais de atenção:

1) Sistema de alerta (quando)

O sistema de alerta informa quando prestar atenção. Ele nos indica que é hora de ativar o o modo focado. É o que acontece (ou deveria acontecer) quando nos sentamos e estamos com nosso material aberto, prontos para começar a estudar ou mesmo fazer uma prova.

2) Sistema de orientação (que)

O sistema de orientação informa em que prestar atenção. São muitos os estímulos que recebemos todo o tempo e muitos deles não são relevantes para nossos objetivos, para o que é importante para nós.

Na preparação para concursos, a necessidade do sistema de orientação é muito clara, seja em relação a estímulos externos, provenientes de distrações diversas, como aplicativos de mensagens ou redes sociais, seja em relação à enorme quantidade de conteúdo e materiais para preparação a que muitos de nós tem acesso. 

É fundamental saber direcionar a atenção, pois ela funciona como um foco de luz em um teatro: o local para o qual você direciona o foco fica mais claro e os demais ficam escuros.

Se você não direcionar sua atenção ao mais importante, você não vai aprender o mais importante. E esse mais importante, para concursos, quer dizer mais importante para o examinador, que pode não coincidir com o que você entende ser mais importante para você.

E escolher em que prestar atenção também implica em decidir o que ignorar, não se esqueça.

É preciso criar a consciência de que a atenção é limitada e, quando estamos focados em uma informação, as outras são, em grande medida, ignoradas. 

3) Sistema de execução (como)

O sistema de execução determina como a informação à qual prestamos atenção é processada. Esse sistema também é conhecido como central executiva ou quadro de distribuição do cérebro.

Ele não seleciona informações, mas sim as operações mentais relacionadas a informações. Ele avalia a relevância de um conteúdo, faz correlações com outros, detecta erros ou desvios em nossos raciocínios e ações. Tem profunda relação com nossa memória de trabalho, que mencionei no Post 09.

Nesse ponto, vale um alerta. Várias pesquisas demonstram que esse sistema funciona como um gargalo, que é capaz de lidar com apenas um processo mental por vez. E isso comprova o que já li em diversos outros livros sobre memória e aprendizagem: fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo (multitasking) é um mito. Não fazemos duas coisas ao mesmo tempo, mesmo que pensemos o contrário. Uma atividade é atrasada em relação a outra, mesmo que não sejamos capazes de perceber isso. E tentar fazer duas coisas ao mesmo tempo prejudica o desempenho nas duas.

Por exemplo, quando alguém está ao volante e digita uma mensagem, nos momentos em que está digitando não está prestando atenção no trânsito, por mais que ele faça transições rápidas entre uma atividade e outra. Por isso é tão perigoso utilizar o telefone ao volante. 

Esse raciocínio vale para qualquer outro estímulo ou atividade paralela ao estudo. Se está processando alguma outra informação, não está estudando naquele momento.

O sistema de execução é o mais refinado deles e corresponde ao que normalmente chamamos de concentração. Esse sistema só estará completamente desenvolvido por volta dos vinte anos de idade.

Esses são os principais sistemas de atenção e é importante conhecer a existência deles e um pouco de seu funcionamento.

Mas ainda mais importante é saber que esses sistemas também são sujeitos à plasticidade cerebral. Ou seja, todos os três são passíveis de desenvolvimento através de treinamento e de estudo.

Se você acredita que precisa melhorar em algum dos sistemas de atenção, a única forma de fazer isso é treinando. Para melhorar a atenção, pratique atenção.

Crie um ritual simples antes de iniciar os estudos, que possa ser reproduzido antes da prova, para mostrar a seu cérebro que é hora de iniciar o modo focado (quando). Vá aprimorando intencionalmente a qualidade e o aumentando o tempo de atenção. Elimine interferências quando possível.

Conheça cada vez mais seus concursos e suas bancas para saber para quais conteúdos deve direcionar sua atenção (que). 

Pratique muito, faça provas e simule questões para desenvolver formas mais eficientes de operacionalizar os conteúdos aprendidos, aumentar a qualidade das respostas e diminuir progressivamente a quantidade de erros.

Não é complicado, mas é trabalhoso.

Vamos juntos!

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